As seguradoras elevaram os critérios de credenciamento de oficinas para além do preço, passando a exigir certificação, rastreabilidade do reparo, padrão de entrega e digitalização, conforme reportagem publicada em 23 de junho de 2026. Reuniões entre o Sindirepa e seguradoras ocorreram em maio de 2026.

O que mudou nos critérios

Segundo a reportagem de junho de 2026, o conjunto de exigências passou a incluir certificação — o IQA é citado como exemplo —, rastreabilidade do reparo, padrão de entrega, digitalização e maior controle sobre qualidade e agilidade.

Diego Pieri da Cruz Gragnanello Silva, fundador e diretor de operações da Garagem 659 Customs, de Atibaia (SP), resume o que ouviu do mercado: "Seguradora não quer só oficina barata. Quer oficina que entrega no prazo, com registro do antes e do depois, sem retorno de garantia." Segundo a mesma reportagem, ele obteve certificação do IQA em junho de 2026.

Traduzindo a frase para requisitos, ela contém quatro coisas distintas:

  1. Prazo — data de entrega cumprida, e sistema que permita acompanhar.
  2. Registro — evidência fotográfica e documental de cada etapa do reparo.
  3. Retorno de garantia — indicador de qualidade que a oficina precisa medir para poder mostrar.
  4. Preço — que continua contando, mas deixou de ser o único critério.

O terceiro item merece atenção: você não consegue provar que tem retorno baixo se não mede. É exatamente o método descrito em como medir e cortar o retrabalho na oficina — e ele deixa de ser gestão interna para virar requisito comercial.

O tamanho do mercado — e a divergência dos números

Os dados citados na reportagem, com as fontes que ela atribui:

DadoValorFonte atribuída
Mercado segurador brasileiro (2025)R$ 223,6 bilhõesSusep
Seguro automóvel, até maio de 2025R$ 24,01 bilhões, alta de 5,89%Susep
Frotas corporativas terceirizadas73,7%CGFM-SP
Crescimento da terceirização em 202420%CGFM-SP
Veículos atendidos por mês, por oficina (2024)123Sindirepa Brasil
Crescimento de atendimentos, 2020 a 202452,5%Sindirepa Brasil
Oficinas em operaçãomais de 74.600Sindirepa Brasil
Profissionais ativoscerca de 300 milSindirepa Brasil

Uma ressalva que a cobertura não fez e que importa. O número de oficinas atribuído ao Sindirepa varia conforme o recorte: mais de 74.600 em operação nesta reportagem de junho de 2026; cerca de 102 mil oficinas formais em diagnóstico da entidade citado em 2026; e cerca de 160 mil oficinas independentes ligadas às entidades regionais, no Anuário 2025/2026. Os números não se contradizem — medem conjuntos diferentes. Ao citar qualquer um deles, informe o recorte, porque a diferença entre 74 mil e 160 mil muda qualquer conclusão sobre concorrência.

O dado mais acionável da tabela é o da terceirização: 73,7% das frotas corporativas terceirizadas significa que há um comprador pessoa jurídica organizado do outro lado — o mesmo que valoriza crédito tributário e que torna relevante a decisão do Simples híbrido.

Os números do mercado de seguro e reparação com as fontes atribuídas Fontes: Susep, CGFM-SP e Sindirepa Brasil, conforme reportagem de 23 de junho de 2026. Arte: Oficinas Inteligentes.

A lista de prontidão

Traduzindo as exigências relatadas em itens verificáveis. Boa parte já existe em oficina bem tocada — o que costuma faltar é o registro.

Processo e registro

  • Ordem de serviço que descreve o dano, o serviço aprovado e o executado.
  • Registro fotográfico da entrada, das etapas intermediárias e da entrega, armazenado e recuperável por veículo.
  • Controle de prazo com data prometida e data efetiva, por OS.
  • Indicador de retorno de garantia medido e apresentável.

Técnico

  • Capacidade nas tecnologias que o sinistro moderno exige, incluindo, quando aplicável, calibração de ADAS — reparo de para-choque com radar e troca de para-brisa são casos frequentes em sinistro.
  • Procedimento de reparo conforme fabricante e rastreabilidade da peça aplicada.

Formal

  • Regularidade fiscal e trabalhista.
  • Emissão fiscal em dia, incluindo a NFS-e de padrão nacional a partir de 1º de novembro de 2026.
  • Apólice própria compatível com a atividade, inclusive para veículo de terceiro em pátio.

Certificação

  • Certificação setorial, quando exigida pelo contratante. O IQA aparece como referência nas exigências relatadas.

Note que três dos quatro blocos são de organização, não de investimento pesado. A oficina que já registra bem está mais perto do credenciamento do que imagina; a que não registra vai reprovar mesmo tendo bom serviço técnico.

A conta que decide: margem contra volume

Credenciamento não é bom por definição. É um contrato com trocas claras: volume e previsibilidade em troca de preço, prazo e processo.

Exemplo ilustrativo, com números hipotéticos.

Uma oficina com custo de R$ 61,58 por hora produtiva pratica R$ 85,53 na hora do cliente particular. A seguradora paga R$ 70,00 pela hora, com volume garantido.

CenárioHoraMargem sobre o custoObservação
Cliente particularR$ 85,53R$ 23,95Volume irregular
CredenciadoR$ 70,00R$ 8,42Volume previsível

Comparação da margem por hora entre cliente particular e serviço credenciado Exemplo ilustrativo com números hipotéticos. Só compensa se preencher hora ociosa. Arte: Oficinas Inteligentes.

A margem por hora cai 65% no exemplo. Isso só compensa se o volume preencher horas que hoje estão ociosas — porque, se o serviço credenciado ocupar a hora que seria vendida ao particular, a oficina troca margem alta por margem baixa e trabalha mais para ganhar menos.

A pergunta que decide, portanto, é a sua taxa de ocupação. Com ocupação baixa, o credenciado preenche buraco e a margem menor é lucro incremental. Com ocupação alta, ele desloca serviço melhor. O método para levantar isso está em quanto custa uma hora da sua oficina.

Some ao cálculo dois custos que costumam ficar de fora: o prazo de pagamento — que consome capital de giro — e o custo administrativo do processo, com fotos, laudos, aprovações e sistema do contratante.

O que perguntar antes de assinar

1. Qual o valor da hora e como ele é reajustado? Contrato sem regra de reajuste vira perda silenciosa em dois anos.

2. Qual o prazo de pagamento, contado de quê? Da entrega, da aprovação ou do faturamento? A diferença é caixa.

3. Quem decide a peça a ser aplicada, e quem responde por ela? Isso afeta garantia e responsabilidade técnica.

4. Qual o volume estimado e há garantia mínima? "Volume" sem número não é argumento comercial.

5. Quais indicadores serão medidos e qual a consequência de não atingir? Prazo, retorno de garantia, satisfação — e o que acontece se ficar abaixo.

6. Como funciona o descredenciamento? Prazo de aviso e o que acontece com serviço em andamento.

7. Que sistema eu preciso usar, e ele conversa com o meu? Digitação dupla é custo administrativo permanente.

Peça tudo por escrito. E, antes de assinar, converse com duas oficinas que já são credenciadas dessa mesma contratante — é a pesquisa mais barata e mais informativa disponível.

Por onde começar

  • Esta semana: levante a sua taxa de ocupação real. Sem ela, a conta de margem não fecha.
  • Este mês: organize o registro fotográfico por veículo, se ainda não existe. É o item que mais reprova.
  • Este mês: comece a medir retorno de garantia. Sem histórico, você não tem o que apresentar.
  • Antes de buscar: verifique regularidade fiscal, emissão da NFS-e nacional e apólice compatível.
  • Ao negociar: leve as sete perguntas por escrito e converse com dois credenciados atuais.

Em resumo

  • Seguradoras elevaram os critérios de credenciamento além do preço, incluindo certificação, rastreabilidade do reparo, padrão de entrega e digitalização, conforme reportagem de 23 de junho de 2026.
  • Reuniões entre o Sindirepa e seguradoras ocorreram em maio de 2026.
  • Segundo dados da Susep citados na reportagem, o mercado segurador movimentou R$ 223,6 bilhões em 2025, com R$ 24,01 bilhões em seguro automóvel até maio de 2025, alta de 5,89%.
  • Segundo o CGFM-SP, 73,7% das frotas corporativas estão terceirizadas, com crescimento de 20% na terceirização em 2024.
  • O Sindirepa Brasil, na mesma reportagem, aponta mais de 74.600 oficinas em operação, cerca de 300 mil profissionais ativos e 123 veículos atendidos por mês por oficina em 2024.
  • O número de oficinas atribuído ao Sindirepa varia por recorte — 74.600 em operação, cerca de 102 mil formais e cerca de 160 mil ligadas às entidades regionais —, e o recorte precisa ser informado ao citar.
  • A decisão de buscar credenciamento depende da taxa de ocupação: margem menor só compensa se o volume preencher horas ociosas.

Perguntas frequentes

Vale a pena ser oficina credenciada de seguradora?

Depende da sua taxa de ocupação. Credenciamento troca margem por volume e previsibilidade. Com agenda ociosa, a margem menor é lucro incremental. Com agenda cheia, o serviço credenciado desloca o cliente particular, que paga mais — e a oficina trabalha mais para ganhar menos.

O que as seguradoras exigem hoje?

Além de preço, passaram a exigir certificação, rastreabilidade do reparo, padrão de entrega e digitalização, conforme reportagem de junho de 2026. Na prática, isso significa registro fotográfico por etapa, controle de prazo por ordem de serviço e indicador de retorno de garantia medido e apresentável.

Preciso de certificação para me credenciar?

Depende da contratante. A certificação do IQA aparece entre as exigências relatadas, e há oficinas obtendo-a para atender esse requisito. Pergunte diretamente à seguradora quais certificações são aceitas e se são obrigatórias ou apenas pontuam na avaliação, antes de investir.

Como comprovo que tenho retorno de garantia baixo?

Medindo antes de precisar. Registre cada retorno atribuível à oficina, calcule a taxa sobre as ordens de serviço concluídas e mantenha o histórico. Sem registro, não há o que apresentar — e afirmar que o retorno é baixo sem número não convence comprador profissional.

O prazo de pagamento é um problema?

Pode ser, e ele precisa entrar na conta. Verifique de que evento o prazo é contado: da entrega, da aprovação do laudo ou do faturamento. Prazo longo consome capital de giro, o que é especialmente sensível para oficina pequena com volume alto de peça.

Posso ser credenciado de mais de uma seguradora?

Em geral sim, mas isso depende do contrato de cada uma, e a capacidade operacional precisa acompanhar. Assumir volume de dois contratantes sem estrutura leva a atraso — e prazo é justamente um dos indicadores medidos, o que pode custar os dois credenciamentos.

O que mais reprova oficina no credenciamento?

Pelas exigências relatadas, a ausência de registro. Muita oficina executa bem e não documenta: sem foto de entrada e de etapas, sem controle de prazo por OS e sem indicador de retorno, não há como demonstrar o que se faz. Organização reprova mais que capacidade técnica.

Preciso fazer calibração de ADAS para atender sinistro?

Cada vez mais, sim, ou ter parceria formal para isso. Reparo de para-choque com radar e troca de para-brisa são frequentes em sinistro e podem exigir calibração. Verifique com a contratante como esse serviço é tratado e quem responde por ele.

Fontes e metodologia

Fontes consultadas em 7 de setembro de 2026.

  1. Terra — Seguradoras de carros elevam padrão e pressionam oficinas, publicada em 23 de junho de 2026, com as exigências relatadas, a declaração de Diego Pieri da Cruz Gragnanello Silva e os dados atribuídos a Susep, CGFM-SP e Sindirepa Brasil. terra.com.br
  2. Susep — Superintendência de Seguros Privados, dados do mercado segurador. gov.br/susep
  3. Sindirepa Brasil — Anuário da Indústria da Reparação de Veículos 2025/2026. sindirepabrasil.org.br
  4. Instituto da Qualidade Automotiva — programas de certificação. iqa.org.br
  5. Sindipeças/Abipeças — Relatório da Frota Circulante, edição 2026. sindipecas.org.br

Metodologia. Os dados de mercado desta reportagem são reproduzidos da matéria do Terra de 23 de junho de 2026, que os atribui a Susep, CGFM-SP e Sindirepa Brasil; não acessamos os relatórios originais dessas entidades e assim os identificamos ao longo do texto. O exemplo de margem usa valores hipotéticos: custo de R$ 61,58 e preço de R$ 85,53 por hora vêm do exemplo publicado em nosso guia de custo por hora produtiva; o valor de R$ 70,00 pago pela seguradora é arbitrado para demonstrar o método, não coletado de contrato real.

O que não foi possível apurar. Não localizamos, até 7 de setembro de 2026: valores de hora efetivamente praticados em contratos de credenciamento, que não são públicos; número de oficinas credenciadas por seguradora no Brasil; critérios formais e escritos de credenciamento publicados pelas seguradoras; e manifestação das seguradoras citadas sobre as exigências relatadas. Nenhuma seguradora foi contatada para esta reportagem.

Nota editorial

Este artigo se apoia principalmente em uma reportagem de terceiro publicada em junho de 2026 e nos dados que ela atribui a entidades do setor, o que está identificado ao longo do texto. As seguradoras mencionadas na reportagem de origem não foram contatadas e não se manifestaram aqui. A lista de prontidão e a conta de margem são construção da redação, com números hipotéticos, e não substituem a análise do contrato concreto — que deve ser lido com apoio jurídico e contábil. Oficinas Inteligentes é um veículo independente e não intermedeia credenciamento.

Redação Oficinas Inteligentes · Publicado em 7 de setembro de 2026 · Atualizado em 7 de setembro de 2026

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