A ABNT PR 1025 é uma Prática Recomendada publicada em novembro de 2025 que estabelece três níveis de capacitação para profissionais que reparam ou inspecionam veículos elétricos e híbridos. Ela não é lei nem norma de cumprimento obrigatório: é um documento de referência técnica elaborado pela Comissão de Estudo de Inspeção, Reparação e Manutenção de Veículos Elétricos da ABNT.

Prática recomendada não é lei — e por que isso importa

Uma Prática Recomendada da ABNT é um documento técnico de referência, elaborado por comissão de estudo, que consolida boas práticas de um setor. Ela não tem força de lei e não cria, por si só, obrigação legal para a oficina. A cobertura de novembro de 2025 usou "nova lei" e "novas regras" — a rigor, é recomendação.

Isso não a torna irrelevante. Três razões para tratá-la a sério mesmo sem obrigatoriedade:

Ela vira referência de responsabilidade. Em discussão sobre acidente ou dano, "qual era a boa prática do setor?" é uma pergunta que aparece. A partir de novembro de 2025, existe um documento brasileiro que a responde.

Ela pode ser exigida por contrato. Seguradora, frotista e montadora podem incorporar a PR 1025 como requisito de credenciamento, independentemente de lei. É assim que documento de referência costuma virar exigência prática.

Ela organiza a decisão de investimento. Antes dela, "capacitar em carro elétrico" era uma ideia vaga. Agora há três degraus definidos, com escopo e pré-requisito — o que permite planejar por função, não por impulso.

Card explicando o que a ABNT PR 1025 é e o que ela não é Prática recomendada é referência técnica, não lei. Arte: Oficinas Inteligentes.

E há uma obrigação que é legal e independe da PR 1025: a segurança do trabalho. Trabalho com eletricidade está sujeito à NR-10, que exige capacitação e autorização do trabalhador e trata alta tensão como atividade de alto risco. A PR 1025 organiza a competência técnica; a NR-10 rege a segurança do trabalhador. As duas coisas coexistem e nenhuma substitui a outra.

Os três níveis, lado a lado

Nível 1Nível 2Nível 3
Pode atuar emReparação mecânica e no interior do veículoMecânica e sistemas elétricos de baixa tensão (12 V); apoio ao Nível 3Todo o veículo, incluindo alta tensão, remoção e instalação de motor e bateria de tração
Não podeIntervir em sistema de alta tensãoIntervir em sistema de alta tensão
EscolaridadeEnsino fundamental (5º ano)Ensino médio e curso profissionalizante em elétrica ou eletrônicaFormação técnica ou superior em tração elétrica automotiva
Experiência4 anos como ajudante ou 2 anos como mecânico2 anos como ajudante ou 1 ano como mecânico1 ano com sistemas de alta tensão e bateria de tração

Além dos requisitos por nível, o documento prevê formação específica de no mínimo 160 horas ou dois anos de experiência comprovada, e treinamento adicional de 40 horas com foco em segurança em alta tensão.

O documento tem 14 páginas e foi elaborado ao longo de nove reuniões realizadas entre 2023 e 2025.

Tabela visual com os três níveis de capacitação da ABNT PR 1025 Escopo, escolaridade e experiência de cada nível. Fonte: ABNT PR 1025, publicada em novembro de 2025. Arte: Oficinas Inteligentes.

O que isso significa para uma oficina de bairro

A leitura errada é "preciso formar todo mundo no Nível 3". A leitura certa é que a maior parte do serviço que chega hoje é Nível 1 e Nível 2 — e que existe um limite claro de onde parar.

Traduzindo para as funções que existem no seu galpão:

O mecânico que faz suspensão, freio, pneu, ar-condicionado e interior em um híbrido está no escopo do Nível 1. Ele não toca em alta tensão. Precisa saber identificar o cabo laranja, entender o procedimento de desenergização que o fabricante determina e saber quando parar.

O eletricista que trabalha com o sistema de 12 V, diagnóstico e apoio é Nível 2. É provavelmente o degrau com melhor relação entre investimento e retorno para a oficina independente hoje.

A intervenção em bateria de tração, inversor e motor elétrico é Nível 3, exige formação técnica ou superior em tração elétrica e um ano de experiência com alta tensão. Para a esmagadora maioria das oficinas de bairro, isso é serviço para encaminhar, não para absorver.

O mercado justifica o movimento sem exigir salto. Segundo a ABVE, os eletrificados somaram 215.023 vendas no primeiro semestre de 2026, alta de 125% sobre o mesmo período de 2025, com 15,8% de participação nas vendas de leves e 18,3% em junho. Ao mesmo tempo, a frota circulante tem 11 anos de idade média, segundo o Sindipeças — o carro elétrico chega ao pátio da oficina independente com atraso em relação à venda. Você tem tempo, e tem menos tempo do que parece.

Onde capacitar: o que há de informação pública

Critério de inclusão desta lista: instituições com oferta de formação em manutenção de veículos elétricos e híbridos e com informação pública verificável sobre carga horária, na consulta feita em 7 de setembro de 2026. A lista não é exaustiva e a inclusão não é recomendação: é registro do que é público.

InstituiçãoFormaçãoCarga horáriaPré-requisito informado
SENAI-RNManutenção Segura em Veículos Elétricos e Híbridos100 horasExperiência, conhecimento ou certificação em mecânica, elétrica ou mecatrônica
SENAI-RNEspecialista em Conversão de Veículos a Combustão para Elétricos160 horasNão informado publicamente
SENAI BahiaEspecialização Técnica em Manutenção de Veículos Elétricos e Híbridos (pós-técnico)300 horas, em 10 mesesFormação técnica
Faculdade SENAI-SPPós-graduação em Veículos Elétricos e HíbridosNão informada na página consultadaEnsino superior

Três observações honestas sobre esta tabela:

Não há preço. Nenhuma das instituições publica valor de forma consolidada e comparável, e os valores variam por unidade e por turma. Não estimamos.

A oferta é regional e rotativa. Turmas do SENAI abrem e fecham por unidade. A tabela registra o que estava publicado na data da consulta; confirme diretamente com a unidade da sua cidade.

Carga horária não é equivalência automática. Um curso de 100 horas não atende sozinho o requisito de 160 horas de formação específica descrito na PR 1025. Some formações, ou confirme com a instituição o que o certificado dela cobre.

Duas fontes adicionais que valem consulta: montadoras com rede de eletrificados oferecem formação própria, geralmente restrita à rede autorizada; e o Instituto da Qualidade Automotiva mantém frente de trabalho em eletrificação, com programas de certificação.

O que a PR 1025 não resolve

Um documento de 14 páginas não faz milagre, e nomear o que ele deixa em aberto é mais útil que celebrá-lo.

Não define quem certifica. A prática recomendada descreve requisitos de competência, mas não cria um selo nacional nem um cadastro público de profissionais habilitados. Na prática, cada instituição emite o seu certificado.

Não resolve o EPI e a infraestrutura. Luva isolante classe adequada, ferramenta isolada, tapete, sinalização de área e procedimento de desenergização são investimento à parte, com validade e inspeção periódica próprias.

Não fala de seguro nem de responsabilidade civil. A oficina que passa a atender alta tensão precisa conversar com o corretor. A apólice antiga pode não cobrer a atividade nova.

Não substitui o procedimento do fabricante. Desenergização, torque, sequência de desconexão e tempo de espera antes da intervenção variam por modelo e são definidos pela montadora.

⚠️ Alerta de segurança. Sistemas de alta tensão de veículos elétricos e híbridos oferecem risco de choque elétrico grave e de arco elétrico, inclusive com o veículo desligado. Nenhuma intervenção deve ser feita por profissional não capacitado e não autorizado, sem os equipamentos de proteção adequados e fora do procedimento definido pelo fabricante. Este artigo não descreve procedimento de intervenção e não substitui treinamento formal.

Por onde começar

  • Esta semana: classifique a sua equipe atual nos três níveis. Provavelmente todos estão no Nível 1 sem formação específica — o que é o ponto de partida normal.
  • Este mês: consulte a unidade do SENAI da sua cidade e pergunte três coisas: quando abre turma, qual a carga horária e se o certificado atende os requisitos descritos na ABNT PR 1025.
  • Antes de investir: levante quantos eletrificados você atendeu nos últimos 12 meses. Se o número for zero, comece pelo Nível 1 com uma pessoa, não pelo Nível 3 com a equipe.
  • Ao formar o primeiro: revise a apólice de seguro e o inventário de EPI antes de aceitar o primeiro serviço.
  • Sempre: defina por escrito o que a sua oficina faz e o que encaminha. Um limite claro protege o cliente, o mecânico e o negócio.

Em resumo

  • A ABNT PR 1025 é uma Prática Recomendada publicada em novembro de 2025 — não é lei nem norma de cumprimento obrigatório, apesar das manchetes que a trataram como "nova lei".
  • Ela define três níveis de capacitação para quem repara ou inspeciona veículos elétricos e híbridos.
  • O Nível 1 cobre reparação mecânica e interior, sem intervenção em alta tensão; o Nível 2 acrescenta sistemas de baixa tensão (12 V) e apoio; o Nível 3 habilita a atuar em todo o veículo, incluindo bateria de tração e motor elétrico.
  • O documento prevê formação específica mínima de 160 horas ou dois anos de experiência comprovada, além de treinamento adicional de 40 horas voltado à segurança em alta tensão.
  • Tem 14 páginas e foi elaborado em nove reuniões entre 2023 e 2025 pela Comissão de Estudo de Inspeção, Reparação e Manutenção de Veículos Elétricos.
  • A NR-10 continua se aplicando à segurança do trabalhador em atividades com eletricidade, independentemente da PR 1025.
  • Os eletrificados somaram 215.023 vendas no primeiro semestre de 2026, com 15,8% de participação nas vendas de leves, segundo a ABVE.

Perguntas frequentes

A ABNT PR 1025 é obrigatória?

Não. É uma Prática Recomendada, documento técnico de referência elaborado por comissão de estudo da ABNT. Não tem força de lei e não cria, por si só, obrigação para a oficina. Pode, no entanto, ser exigida por contrato de credenciamento com seguradora, frotista ou montadora, e serve como referência de boa prática do setor.

Preciso de curso para atender carro híbrido na minha oficina?

Para serviço mecânico e de interior, que é o escopo do Nível 1, a PR 1025 não exige formação técnica avançada, mas exige que o profissional saiba identificar e não intervir no sistema de alta tensão. Para qualquer intervenção em alta tensão, a resposta é sim — e também se aplica a NR-10.

Qual é a carga horária exigida?

A prática recomendada descreve formação específica de no mínimo 160 horas ou dois anos de experiência comprovada, além de treinamento adicional de 40 horas com foco em segurança em alta tensão. Confirme com a instituição de ensino se o certificado dela cobre esses requisitos antes de matricular a equipe.

Existe um certificado nacional de mecânico de carro elétrico?

Não há, até 7 de setembro de 2026, selo nacional único nem cadastro público de profissionais habilitados criado pela PR 1025. Cada instituição de ensino emite o próprio certificado. Guarde os comprovantes de formação da sua equipe: eles são a evidência de competência em caso de discussão.

Onde encontro curso perto de mim?

O SENAI é a rede com oferta mais distribuída, mas as turmas abrem por unidade e mudam ao longo do ano. Consulte a unidade da sua cidade diretamente. Montadoras com rede de eletrificados também oferecem formação, geralmente restrita à rede autorizada, e o IQA mantém frente de trabalho em eletrificação.

Quanto custa capacitar um mecânico em carro elétrico?

Não há valor público consolidado e comparável entre as instituições, e o preço varia por unidade e por turma. Por isso não estimamos aqui. Ao pedir orçamento, pergunte também sobre carga horária, pré-requisito e o que o certificado cobre — o preço isolado não permite comparação.

A NR-10 se aplica a carro elétrico?

A NR-10 rege a segurança em serviços com eletricidade e exige capacitação e autorização do trabalhador, tratando alta tensão como atividade de alto risco. Ela é norma de segurança do trabalho e coexiste com a PR 1025, que trata de competência técnica. Nenhuma substitui a outra.

Vale a pena investir agora ou esperar?

Depende do seu pátio, não da média nacional. Levante quantos eletrificados você atendeu nos últimos 12 meses. Se for zero, comece formando uma pessoa no Nível 1 e observe. Se você já recusa serviço por falta de competência, o custo de esperar já está aparecendo no seu faturamento.

Fontes e metodologia

Fontes consultadas em 7 de setembro de 2026.

  1. ABNT — Prática Recomendada ABNT PR 1025, publicada em novembro de 2025, elaborada pela Comissão de Estudo de Inspeção, Reparação e Manutenção de Veículos Elétricos. abnt.org.br
  2. CNN Brasil — Brasil tem novas regras para manutenção de carros elétricos e híbridos, com a abertura dos três níveis e dos requisitos. cnnbrasil.com.br
  3. Gizmodo Brasil — Brasil define novas regras para manutenção de carros elétricos e híbridos. gizmodo.com.br
  4. SENAI-RN, SENAI Bahia e Faculdade SENAI-SP — páginas públicas de oferta de cursos em veículos elétricos e híbridos. rn.senai.br · postecnico.senaibahia.com.br · faculdades.sp.senai.br
  5. ABVE — dados de vendas de eletrificados no primeiro semestre de 2026. abve.org.br
  6. Instituto da Qualidade Automotiva — frente de trabalho em eletrificação e estudo Cenário da Qualidade Automotiva no Brasil 2026-2028, divulgado em 18 de maio de 2026, no qual a escassez de profissionais aparece como o principal obstáculo do setor, com 25% das menções. iqa.org.br

Metodologia do comparativo. Foram incluídas instituições com oferta pública de formação em manutenção de veículos elétricos e híbridos e informação verificável sobre carga horária na data da consulta. A lista não é exaustiva, a ordem não indica preferência e a inclusão não é recomendação. Nenhuma instituição foi contatada para esta reportagem.

O que não foi possível apurar. O inteiro teor da ABNT PR 1025 não foi consultado: o documento é distribuído pela ABNT e as informações aqui reproduzidas vêm da cobertura de imprensa que teve acesso a ele. Antes de usar os requisitos como critério de contratação ou de credenciamento, adquira e leia o documento original. Também não localizamos: preço público e comparável dos cursos citados; cadastro nacional de profissionais habilitados; e dado sobre quantas oficinas independentes brasileiras já atendem eletrificados.

Nota editorial

⚠️ Este artigo descreve um documento técnico de referência e não substitui a leitura do original nem o treinamento formal. Sistemas de alta tensão apresentam risco de choque e arco elétrico e exigem profissional capacitado e autorizado, com EPI adequado e procedimento do fabricante. O artigo não fornece orientação de segurança do trabalho: consulte profissional habilitado quanto à NR-10 e às demais normas aplicáveis. Oficinas Inteligentes é um veículo independente, não tem relação comercial com as instituições de ensino citadas e não recebeu contrapartida por sua menção.

Redação Oficinas Inteligentes · Publicado em 7 de setembro de 2026 · Atualizado em 7 de setembro de 2026

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